A promessa do tigre – Colleen Houck

A maioria das menininhas aguardava ansiosamente o momento em que o pai chegava em casa. Mas não Yesubai. Assim que as badaladas do sino anunciavam a chegada dele, o medo tomava seu coração, apertando-o com força, e a jovem parava de respirar. Ninguém que observasse a pequena criança percebia o terror mortal que ela realmente sentia. Viase apenas uma princesa diminuta, adornada com as mais finas sedas. Seus olhos grandes e de uma cor incomum de lavanda, emoldurados por cílios grossos e escuros sobre o rosto em formato de coração, eram capazes de derreter até o mais duro coração. Por fora, ela era calma e pacífica como um lago na montanha. Não havia nela nada de astúcia ou de mistério – ao menos não em sua aparência externa. A fisionomia de Yesubai em nada refletia a do pai. Apesar disso, ninguém que trabalhava próximo à família arriscaria sequer um sussurro sobre a possibilidade de alguma infidelidade por parte da falecida mulher de seu amo. Ninguém seria tão burro. Contudo, todos pensavam isso. Todos se perguntavam como uma joia tão rara teria nascido de uma fonte tão impura. E quem mais refletia sobre isso era a amada babá de Yesubai, Isha. A serviçal Isha fora chamada quase que imediatamente após a morte da mulher do amo, Yuvakshi.


Na verdade, Isha tinha sido amiga da parteira que ajudara a dar à luz o bebê de Yuvakshi. Porém, logo após o nascimento de sua jovem protegida, a lamentável morte da senhora foi anunciada. A isso se seguiu o misterioso desaparecimento da parteira. Isha, que era ama-seca, foi contratada, e ela e a criança foram banidas, sendo mandadas para o extremo mais distante da suntuosa mansão no pequeno reino de Bhreenam. Bhreenam já tinha sido um lugar pacífico. O rei era velho, mas um bom homem, com pouquíssimas ambições políticas. A maior parte da população era composta de pastores e agricultores, e as forças militares tinham o tamanho necessário apenas para oferecer segurança contra baderneiros ou bêbados ocasionais. Aquele era um bom lugar para se morar… antigamente. Agora, um novo comandante havia assumido o poder. O mesmo homem que contratara Isha. Um homem sombrio. Perigoso. Por fora, claro, era todo sorrisos e demonstrava deferência ao rei, mas Isha precisava se esforçar muito para não fazer um apelo aos deuses, pedindo proteção contra o mal, cada vez que ele se aproximava. Seu patrão a apavorava. Mais do que qualquer outra pessoa que ela já conhecera.

A suspeita de Isha de que o pai da criança fizera algo terrível à esposa aumentava ainda mais quando ele visitava o quarto da bebê. Ela muitas vezes o surpreendia lá, encarando a filha com umnítido desprezo estampado no rosto. Covardemente, ela esperava junto à porta, parcialmente escondida, esfregando as mãos enquanto murmurava súplicas silenciosas para que a menininha a quem passara a amar não fizesse nada que pudesse irritar o pai. Quando ele se retirava, ela suspirava de alívio e agradecia aos deuses por terem feito com que sua protegida não despertasse. Porém, após cada uma dessas visitas, ela descobria que a menininha na verdade estava acordada, os olhos líquidos ainda encarando o ponto onde havia pouco estivera o rosto do pai. Os braços e as pernas da bebê permaneciam imóveis e o cobertor continuava firme, enrolado nela. Com o passar do tempo, apesar das visitas frequentes do pai da menina, Isha passou a desejar que Yesubai demonstrasse mais emoções. Com efeito, muitas vezes se perguntava se estaria fazendo algo errado. Ela não era uma criança malvada. Nada disso. Yesubai apenas tinha um temperamento sério. Ela não brincava como as outras crianças. Em vez de sonhar acordada ou fazer de conta com seus brinquedos, apenas os posicionava em um lugar onde, segundo ela, ficavam mais bonitos de se ver. Os sorrisos eram raros. Com sua beleza inegável, a maioria das pessoas a enxergava somente como uma bonequinha.

Apenas Isha era capaz de captar os sentimentos profundos que corriam sob a superfície. As visitas do pai de Yesubai se tornaram menos assíduas à medida que a menina foi crescendo, ou seja, na maior parte do tempo ele deixava a filha em paz – exceto quando a levava a festas e eventos políticos. Nessas ocasiões, a beleza rara da menina parecia agradá-lo, especialmente quando o rei tecia comentários sobre ela. Yesubai seguia o pai de ministro em ministro, até mesmo segurando sua mão quando ele exigia, e não abria a boca a menos que alguém falasse diretamente com ela. Nesses casos, era educada e perfeita como uma princesa, e sua natureza tranquila encantava a todos os que a conheciam. Embora a usasse em proveito próprio, o pai de Yesubai não lhe dirigia uma palavra amável e entregava a menina aos cuidados de outra pessoa assim que era possível. Só quando estava emsegurança nos braços de Isha é que a jovem relaxava os ombros e seus lindos olhos se fechavam. Então a babá acomodava aquela pequena criatura etérea na cama e refletia, sempre, se ela não seria uma mulher adulta, mais sábia do que permitia a sua idade, presa naquele corpo de criança. Quando Yesubai tinha 8 anos, seu pai partiu numa viagem pela qual demonstrara estar curiosamente entusiasmado. O brilho em seus olhos era assustador, e Isha torceu em segredo para que a razão de sua partida, qualquer que fosse, o mantivesse afastado por tempo indefinido. Porém, como sempre, ele voltou e ela aguardou, com temor paralisante, o que viria a seguir. Se a viagem do amo tivesse sido bem-sucedida, ele mandaria os serviçais distribuírem caixas de flores recém-colhidas; caso contrário, iria atrás de Yesubai. Isha não precisou esperar muito tempo. Quando irrompeu no quarto, afoita, viu a menina que passara a amar em pé, imóvel, olhando fixamente para a porta. Tomou-a pela mão e apertou com força.

Os olhos cor de lavanda piscaram uma vez, duas, e então se voltaram para a velha serviçal. O mais tênue movimento de canto de boca indicava que Yesubai estava grata por sua presença. Enquanto a menina cobria cuidadosamente os cabelos que iam até a cintura com um lenço roxo, Isha andou pelo quarto, já impecável, e alinhou um livro sobre a mesa, secou a condensação da jarra de água, esticou um cobertor e afofou algumas almofadas. Ouviu-se um ruído de botas pesadas se aproximando pelo corredor e rapidamente Yesubai prendeu o lenço, passando-o sobre o rosto de modo que só seus lindos olhos pudessem ser vistos. Isha se posicionou na lateral do quarto e ficou na penumbra, tomando coragem para defender a menina, mas torcendo para que isso não fosse necessário. Por mais que quisesse ser uma mulher forte, do tipo que não se curvava diante do mal, sempre sentia um alívio culpado quando a menininha que sabia demais era capaz de lidar com o pai sem a ajuda de ninguém. Um dia, pensou, um dia ficarei ao lado dela, sem medo. Porém Isha não se manteve destemida ao lado de Yesubai – pelo menos não imediatamente. Quando o pai da menina entrou no quarto, com o poder crepitando nas pontas dos dedos, tanto a jovem quanto a idosa souberam que a visita daquele dia não traria flores, mas espinhos. Yesubai fez uma mesura para o pai e baixou o olhar humildemente, como ele esperava, mas então ele atacou, primeiro com o poder antinatural que trazia armazenado nos braços e depois com os punhos. Sedas preciosas foram consumidas por labaredas. Pedaços de pedra voaram, chocando-se contra a parede oposta. Delicadas bonecas, com rostos de cera minuciosamente esculpidos, derreteramcompletamente. Quando a destruição física se mostrou incapaz de acalmá-lo, ele dirigiu a ira contra a filha. Bravamente, ela se manteve de pé diante dele, calma e com a cabeça baixa, enquanto o pai esbravejava sobre tudo o que queria mas estava fora de seu alcance: o desejo por uma mulher que o rejeitara, o fato de Yesubai ser frágil e indefesa e de que seu nascimento lhe negara o filho homem que ele tanto queria a seu lado.

Com a fúria de um touro, ele levou o braço atrás e acertou Yesubai no rosto com tanta força que levantou seu corpo franzino do chão. O vento arremessou o véu para o lado e sacudiu seus cabelos. Com um ruído de revirar o estômago, Yesubai se chocou contra a parede e deslizou lentamente até não ser mais que um amontoado no chão. A menina ficou imóvel, com o corpo machucado, parecendo uma boneca que fora atirada sobre rochas pontiagudas. Com um grito, Isha correu, se colocando no caminho do monstro, recebendo em troca uma perna quebrada, a traqueia comprimida, dois olhos roxos e hematomas profundos por todo o corpo. Sua protegida estava morta e Isha sabia que logo se juntaria a ela. No silêncio após a partida dele, Isha recobrou os sentidos. A dor percorria seu corpo e latejava por trás de suas pálpebras, porém ela sentiu um leve toque no braço. Yesubai. A menina estava viva. Ela tocou a amada babá com dedos macios e vacilantes, e um formigamento morno aliviou a dor que percorria os braços e as pernas de Isha. Passaram-se horas e, à medida que se recuperava, Isha refletia sobre o que deduzira dos acessos de raiva de seu amo. Tudo indicava que sua tentativa recente de se infiltrar em um reino vizinho havia fracassado, o que provocara sua fúria. Ele exclamara que os amuletos seriam dele de qualquer maneira e que, se fosse necessário, lutaria contra mil soldados para pôr as mãos nos jovens príncipes. Enquanto batia na filha, dissera que ela era tão imprestável e submissa quanto a mãe, que umhomem poderoso como ele precisava de uma mulher forte e decidida a seu lado e que deveria ter matado Yuvakshi antes de ela lhe dar uma filha fraca, uma fonte permanente de problemas para ele.

Isha continuou deitada em silêncio, o inchaço do rosto e do corpo diminuindo graças ao toque curativo de Yesubai. Ainda assim, a menina, com o lindo rosto marcado por cortes causados pelos anéis do pai, chorou e se desculpou por não poder fazer muito para ajudá-la com a perna. Não importava. Isha se recuperaria. No dia seguinte, a dificuldade de caminhar serviu para lembrá-la de sempre lutar contra o mal. Isha até sentia certo orgulho por saber que, no fim das contas, tivera a coragem de defender sua protegida. Mesmo assim, por mais heroica que tivesse sido, ainda tinha um medo terrível do futuro. O que seu amo faria quando descobrisse que as duas não haviam morrido? Naquele dia repleto de dor e tristeza, Isha compreendeu duas coisas muito importantes. Primeiro: existia um poder mágico, que era usado de forma malévola pelo pai, mas que de algummodo havia sido transmitido à filha. Segundo: o pai de Yesubai realmente tinha matado a esposa e não hesitaria em perpetrar outros assassinatos. Ela já suspeitava que ele tivesse cometido um mal terrível no passado, mas agora sabia que era capaz de algo ainda pior. Muito pior. 1 Véu Eu estava sentada diante do espelho enquanto Isha escovava meus cabelos com movimentos delicados e manipulava as pétalas das flores amarelas com as quais eu acabara de fazer um arranjo. Meu pai havia retornado de uma campanha bem-sucedida, que lhe abrira novas oportunidades financeiras. Não que o povo ou o rei fossem ver uma moeda de ouro, uma ovelha gorda ou mesmo umrolo de tecido fino que fosse.

Não. Os únicos que lucrariam com as conquistas de meu pai seriamseus aliados próximos – homens quase tão vis, traiçoeiros e corruptos quanto ele. É claro que nenhum chegara perto de praticar atos como os dele. Aliás, se eu comparasse os feitos daqueles sanguessugas com os crimes cometidos por meu pai, não chegariam nem a seus pés. Havia muito tempo eu deixara de contar o número de pessoas que ele tinha assassinado das formas mais violentas. Se não fosse por Isha, eu mesma teria desaparecido misteriosamente anos atrás. Infelizmente, a magia que eu tinha sido capaz de desenvolver só surtia efeito em mim, com exceção de uma pequena dose de poder de cura que eu proporcionara a Isha ao longo dos anos – uma habilidade que ficara cuidadosamente em segredo. Nós duas sabíamos o perigo que correríamos se meu pai descobrisse que eu havia herdado a mais ínfima porção da magia que ele dominava. Assim, observávamos e esperávamos, mas nunca havia um momento em que não estivéssemos cercadas, emque ao menos um guarda não nos vigiasse com total atenção. Todos sabiam o que aconteceria se descumprissem uma ordem de meu pai. Até que as circunstâncias mudassem, éramos prisioneiras. Eu era sempre cuidadosa, sempre vigilante, ainda mais agora que ele tinha retornado. Era o meu 16 o aniversário, e o rei, um homem tão bondoso quanto meu pai era desprezível, solicitara minha presença em uma celebração. Ele daria uma grande festa e, embora eu estivesse grata por sua consideração em me convidar, meu estômago se contorcia de nervosismo. Quando os festejos foram anunciados, estremeci por saber que a atividade exigiria que eu estivesse acompanhada de meu pai, algo que eu detestava e – ainda pior – que era inerentemente perigoso.

Mesmo assim, passar o dia do meu aniversário comparecendo a uma festa suntuosa no palácio era algo tão raro e especial que me deixei levar pelo entusiasmo. Principalmente porque eu achava que poderia ter a oportunidade de visitar o famoso jardim do rei. Isha anunciou que o penteado estava pronto. Ela o havia arrumado de modo que a maior parte pendesse pelas minhas costas, mas tinha prendido várias mechas no topo da cabeça, com pequenas joias entremeadas. Trajando as sedas suntuosas porém visivelmente modestas que meu pai me permitia usar, eu me apresentei para a inspeção de Isha. Ela estalou a língua. – Você sempre foi uma linda criança, minha pequena Yesubai, mas está se tornando uma jovem deslumbrante. Pegando o véu translúcido de suas mãos, passei-o pelas costas e o acomodei com cuidado sobre os cabelos. Deixei Isha vislumbrar um breve sorriso triste. – E você sabe quanto eu preferiria ter uma aparência mais normal. A beleza só serve para chamar a atenção dele ainda mais. Enquanto prendia o véu no lugar, Isha retrucou: – Talvez sua beleza o faça se controlar mais do que é da natureza dele. – Talvez. – Fixei a parte inferior do véu dourado transparente sobre meu rosto e senti o nó no estômago que denunciava que alguém de grande poder estava por perto. – Ele está se aproximando.

Vá se esconder no closet. – Sim, senhorita. – Isha colocou a mão macia e enrugada no meu rosto. – Fique em segurança hoje à noite. Dei palmadinhas em seu braço. – Você também. Isha se virou depressa com a escova na mão e se afastou mancando. Mesmo sendo uma mulher grande com problema numa das pernas, ela se movia silenciosamente, habilidade que nós duas dominamos por necessidade. Nem prestando atenção eu era capaz de ouvir qualquer indício de que ela estava presente. Do closet ela poderia ver minha interação com meu pai, mas tinha instruções implícitas para não intervir, não importando o que acontecesse. De qualquer forma, a possibilidade de ele me agredir antes de nos encontrarmos com o rei era remota e, mesmo se acontecesse, apesar da minha habilidade limitada para sarar os ferimentos de Isha, a mim eu poderia curar completamente. Se ao menos pudesse praticar minha magia de forma mais aberta, talvez alcançasse um nível de poder que me permitisse realmente ajudar as pessoas. Armando-me de forças, baixei o olhar no momento exato em que a porta se abriu. Meu pai entrou no quarto com seu assistente, Hajari, um homem tão cruel quanto feio. Plantada firmemente no lugar, dominei meu medo quando Hajari fechou a porta ao entrar e senti a energia vibrar pelo meu corpo quando obriguei meus músculos a relaxarem.

– E onde está aquela babá preguiçosa? – perguntou imediatamente Lokesh, meu pai. – Ela tem o mau hábito de deixar você muito tempo sozinha. – Nunca estou totalmente só, pai – respondi em voz baixa, e senti sua irritação. Meu comentário fora descuidado e transmitia ousadia. Rapidamente completei: – Além disso, não há uma alma sequer na casa de meu estimado pai que ousaria se aproximar de mim com más intenções. Sua poderosa influência é sentida mesmo a distância. Após um momento avaliando as minhas intenções, ele decidiu deixar meu comentário passar embranco. – E é assim que deve ser – disse com impaciência. – Talvez tenha sido precipitado de minha parte – expliquei rapidamente –, mas mandei Isha se retirar mais cedo. Ela não está se sentindo bem e eu não queria pegar a doença dela e me apresentar ao rei com o nariz vermelho e escorrendo. Ele resmungou, mas imediatamente perdeu o interesse em Isha. Meu pai reprovava a fraqueza mais do que tudo e detestava vê-la nos outros. Em toda a minha vida, jamais o vira doente, mas qualquer soldado que apenas tossisse perto dele era mandado para longe no mesmo instante. Sua aversão à doença agia a meu favor, mas eu sabia que ele era inteligente demais para cair mais de uma vez no mesmo truque. Andando ao meu redor, ele avaliou minha aparência ostensivamente e, embora meus punhos tivessem se cerrado quando vi o sorriso lascivo de Hajari, revelando seus dentes escurecidos e trincados – algo que ele somente ousava fazer pelas costas de meu pai –, rapidamente abri os dedos e alisei as saias.

Não queria demonstrar medo ou nervosismo. Seu maior prazer era evocar essas emoções nos outros. Até o rosto de Hajari já estava impassível quando meu pai terminou de dar a volta. – Acho que você está vestida adequadamente – disse ele. – Embora eu prefira lavanda a esse dourado. Ressalta seus olhos. Ele segurou meu queixo e, obedientemente, levantei o olhar para encontrar o dele. – Vou me lembrar de suas preferências para a próxima celebração a que comparecermos – murmurei com modéstia, apenas com um toque de atrevimento para não atiçar seu instinto de explorar a fraqueza. Ambos sabíamos que outro convite real seria, na melhor das hipóteses, improvável. Meu pai era como um animal predador. Se uma pessoa tivesse a ousadia de enfrentá-lo, ele admirava o gesto; já se ele a considerasse fraca demais, simplesmente a destruía. O melhor modo de evitar ficar preso em suas garras era não deixar rastros, mover-se pelo espaço como um espírito. Eu tinha 10 anos quando descobri que eu possuía a capacidade de desaparecer. Inicialmente, eu nem sequer percebi o que tinha acontecido. O ruído forte de botas do lado de fora do meu quarto me assustou e fiquei paralisada no lugar.

Isha entrou rapidamente nos meus aposentos e passou por mim com pressa para arrumar o cômodo, que já estava impecável. Meu pai gostava que suas posses, assim como as pessoas – que para ele também eram suas posses –, estivessem nos devidos lugares quando ele as encontrasse. As precauções de Isha tinham sido desnecessárias. A porta não chegou a se abrir. Quando ela espiou do lado de fora, trocou breves palavras com o guarda e tornou a fechar a porta. Foi quando começou a me chamar. – Bai? Yesubai? Onde você está? Já pode sair. Seu pai não está aqui. Era só a troca da guarda. – Eu… estou bem aqui – murmurei em voz baixa. – Bai? Onde você está? Não consigo vê-la. – Isha? Preocupada, dei um passo à frente e pus a mão em seu braço. Ela deu um gritinho de susto e depois passou as mãos pelos meus braços e pelo meu rosto. – Deve ser a magia – disse ela. – Você ficou invisível.

Consegue voltar a ficar visível? – Não sei – respondi, sentindo o pânico crescer em meu peito. – Tente limpar a mente. Pense em algo sem importância. – Como o quê? Isha olhou para as caixas de flores que tinham acabado de ser trazidas do mercado para que eu fizesse arranjos – o único prazer que meu pai me concedia. Eu imaginava cada botão que eu pegava crescendo livremente ao sol, abrindo as pétalas na direção do céu, embora soubesse que a maioria das flores que recebia era cultivada. Observá-las murchando devagar com o tempo me parecia estranhamente apropriado e extremamente profético. Mesmo quando criança, eu me perguntava quando meu próprio desabrochar acabaria e eu começaria a murchar até não restar nada, isolada em meus aposentos, de onde não retirava nutriente algum e onde nunca podia sentir o sol no rosto. Se ao menos tivesse a liberdade de ir ao mercado sozinha, de escapar momentaneamente da prisão em que vivia, apreciaria essa folga. – Diga o nome todas as flores de que conseguir se lembrar – sugeriu Isha, interrompendo meus pensamentos. – Vou tentar. – Umedeci os lábios e comecei: – Jasmim, lótus, calêndula, girassol… – Isso. Está começando a funcionar. Já consigo vê-la, mas a luz a atravessa como se você fosse um espírito. – Magnólia, dália, orquídea, crisântemo… – Só mais um pouquinho. – Lírio, azaleia, amaranto, clêmatis, caliandra.

– Pronto. Você já está totalmente visível. Como se sente? – Estou bem. Não percebi que estava usando magia. – Vamos treinar enquanto seu pai estiver fora. Precisa aprender a controlar isso, Bai. E, de fato, treinamos. Quando ele voltou, infelizmente em pouco tempo, apenas quatro meses depois, eu já dominava a habilidade de me tornar invisível, mas, por mais que tentássemos, não conseguia transferir esse dom para Isha ou compartilhá-lo com ela. Nossa felicidade com esse novo talento logo se transformou em resignação, pois eu me recusava a deixar minha guardiã para trás, ainda que ela gastasse muitas horas e ainda mais lágrimas tentando me convencer a fugir sem ela. Por fim, decidimos não correr o risco de revelar esse poder e continuei passando tanto tempo no quarto quanto antes. Durante os anos seguintes, usei minha nova habilidade somente em raras ocasiões. Algumas delas foram para escapar dos avanços inapropriados dos poucos homens de meu pai que se atreviam a arriscar enfurecê-lo. Desde pequena, eu estava sujeita a seus olhares maliciosos e beliscões quando meu pai não estava olhando. Alertavam-me de que, se eu os denunciasse, fariam algo horrível com Isha. À medida que eu ia crescendo, essas ameaças iam se tornando cada vez mais comuns e eles faziam de tudo para encontrar oportunidades de ficarem a sós comigo.

Quando um deles enfim conseguiu, fugi para a sala ao lado e fiquei invisível. Embora o homemsuspeitasse de que eu o enganara com algum truque, não teve coragem de dizer nada ao meu pai, pois teria que explicar, para começo de conversa, por que estava em meus aposentos. Depois disso, usei meu poder mais algumas vezes para espionar os guardas ou roubar guloseimas para dar de presente a Isha, mas ela achava que era arriscado demais e, para deixá-la feliz, parei de usar minha habilidade a menos que fosse absolutamente necessário. Graças à vigilância de Isha e aos meus poderes, sempre consegui escapar de todos aqueles que quiseram me fazer mal – com exceção de meu pai. O perigo que eu correria se ele descobrisse minhas habilidades era inegável, então eu suportava suas agressões em silêncio.

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